essa newsletter foi escrita por um humano

Existe um paradoxo silencioso na vida de muita gente: quanto mais uma pessoa coloca seu foco em ler os outros, seus padrões, suas feridas, suas motivações, menos tempo e energia sobram para voltar o olhar para dentro.

É fácil se tornar um especialista da vida alheia. A gente aprende a identificar o trauma do amigo na fala do pai, o medo de abandono na forma como alguém manda mensagem, a insegurança escondida atrás da arrogância do colega. Há uma espécie de prazer intelectual nisso, quase um poder: entender os outros antes que eles se entendam.

Mas enquanto exercemos esse olhar para fora, uma pergunta vai sendo adiada: E eu? O que está acontecendo comigo?

A autoconsciência é desconfortável de um jeito que a consciência sobre o outro não é. Quando analisamos alguém de fora, mantemos distância segura, somos o observador, não o observado. Virar esse olhar para dentro exige uma coragem diferente: a de ser ao mesmo tempo quem vê e quem é visto.

Esse desvio não é sempre consciente. Às vezes ele se disfarça de generosidade, "estou  querendo te ajudar", ou de curiosidade intelectual, "gosto de analisar o comportamento humano". E pode ser as duas coisas, o problema não está no interesse pelo outro, mas no uso desse interesse como fuga de si.

Conhecer-se é um trabalho mais lento, menos glamouroso, não tem a satisfação de "decifrar" alguém. Exige sentar com o que é incerto, contraditório, ainda sem nome dentro de nós. Exige admitir que algumas respostas podem demorar.

Há uma diferença sutil, mas profunda, entre quem faz terapia para entender os outros melhor e quem faz para se entender. Entre quem lê sobre psicologia para ter ferramentas e quem usa essas ferramentas para não precisar olhar para a própria bagunça, para o próprio descontrole emocional, para os próprios pensamentos repetitivos e acelerados.

Ninguém se torna especialista em si mesmo de uma vez, é uma jornada, às vezes de uma vida inteira. Porque no fim, o único ser humano sobre o qual temos total responsabilidade de conhecer somos nós mesmos. Os outros são um convite à empatia, nós somos uma obrigação de presença.

A sua tarefa essa semana é simples: toda vez que você se incomodar com o comportamento do outro, você vai se perguntar “o que isso diz sobre mim?”.

Faça isso e anote, sexta-feira voltarei aqui e quero saber o que você escreveu. Até lá.

Marcos Strider

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